No período pós 25 de Abril de 1974, a maior prosperidade da economia portuguesa, correspondeu na maioria dos casos, e quase sempre, a níveis de endividamento externo insustentáveis, tendo em conta a estrutura produtiva dos lusitanos. Parece existir uma “vocação” nacional para consumir mais do que para produzir no nosso “cantinho à beira mar plantado”, “vocação” que talvez, tenha nascido com os maus hábitos dos navegadores quinhentistas portugueses…
Nesse histórico virar de página que foi a revolução dos cravos, um grande número de empresas de iniciativa privada e de grupos económicos de dimensão relevante, passaram para as mãos do Estado, através de um processo de nacionalizações. Essa transferência da propriedade empresarial, implicou a ocorrência de um conjunto de ineficiências económicas e de débeis “performances” em vários mercados, ferindo de morte, a concretização com sucesso, pelo sector público, da tarefa de optimização e afectação dos recursos escassos, às exigências de um país europeu moderno e desenvolvido. A fé na ideologia “Socialista”, conforme constava na letra da Constituição da República dessa época, reforçou a incapacidade de Portugal em concorrer com modelos económicos liberais, nos quais se observavam níveis de crescimento vigorosos e que possibilitariam a sustentabilidade do processo de enriquecimento dos países pertencentes ao “Clube dos Ricos”, leia-se, CEE…
As reivindicações dos trabalhadores ao nível salarial, também, contribuíram para a criação de um ambiente politico complacente com a adopção de politicas de rendimentos e de salários demasiadamente generosas tendo em conta os níveis de produtividade observados nos três sectores económicos do Portugal dos anos setenta. Era necessário não “trair” os ideais revolucionários conquistados pelo povo, agora libertado da ditadura do Estado Novo…
O eclodir do choque petrolífero (1973) a nível mundial, teve repercussões graves nos custos das empresas e na sua competitividade interna e externa, em especial nas empresas de bens transaccionáveis, já que as de bens não transaccionáveis sempre estiveram mais protegidas pelo Estado através da adopção de politicas públicas adequadas a esse fim.
A evolução nos anos seguintes da economia portuguesa, ficou pressionada por níveis elevados de inflação, com perda efectiva dos salários reais e com taxas de juro elevadas que limitavam o investimento, contribuíram para o agravar do cenário económico português, na medida em que o nosso tecido empresarial dependia, fortemente, da evolução destas variáveis com vista à viabilização do projecto de crescimento e assim, por essa via, poder convergir para níveis de bem-estar mais adequados e semelhantes aos países do então chamado “pelotão da frente”.
A conjugação destes factores criou uma restrição ao crescimento económico em Portugal. Houve, então, a necessidade de recorrer ao FMI (1983) de modo a implementar medidas de austeridade (Politicas monetárias e orçamentais restritivas e politicas cambiais de desvalorização cambial com o objectivo de aumentar as exportações) que assegurassem a credibilidade necessária à cura do doente “Portugal” junto dos credores internacionais de então.
PS e PSD esqueceram as guerrilhas partidárias em virtude da grave crise vivida em Portugal. Era imperioso salvar o país. Nascia uma “parceria” verdadeiramente patriótica, chamada de “Bloco Central”, que possibilitou o regresso ao bom comportamento dos agentes económicos, políticos e sociais conforme se comprovou posteriormente, com a nossa adesão à CEE (1986) mediante certos critérios de admissibilidade, como foi, por exemplo, o processo de privatizações de empresas outrora nacionalizadas nos anos oitenta.
Após a nossa entrada na CEE, e com o apoio dos fundos estruturais no período compreendido entre os anos de 1986 e os anos de 1995, procurou-se financiar um conjunto de infra-estruturas, aproveitando as baixas de taxas de juro no contexto europeu tendo em conta aquelas que se observavam na década de 70 e 80 em Portugal. Os pacotes de ajuda comunitária tão necessários à qualificação e formação do factor trabalho, visavam também, aumentar e potenciar o crescimento económico futuro. A adesão à CEE implicou níveis de crescimento na ordem dos 3%, fenómeno, raramente, observado na nossa História colectiva, com consequências positivas no crescimento nacional até aos meados anos de 2001.
Contudo, e por decisões de politica económica erradas adoptadas pelo Estado (2001), a par de um modelo inadequado de negócio da bancário, focado essencialmente para o financiamento do crédito à habitação, agravou não só a mobilidade dos trabalhadores como também restringiu o crédito às empresas orientadas para a produção de bens transaccionáveis e que se esforçavam por exportar para uma nova dimensão de espaço fortemente concorrencial e bastante agreste face a qualidade dos empresários saídos de um contexto proteccionista estatal…
Nos anos 2001 até aos dias de hoje, a falsa ideia de que com o euro os portugueses podiam viver à “moda alemã” teve consequências trágicas para Portugal.
Os fracos níveis de crescimento (Crescimento médio do PIB foi de 0.6% na primeira década deste século) verificados no período compreendido entre 2001 e 2011, não permitem, actualmente, manter o nível das importações mesmo com um ligeiro aumento das exportações, pois a balança de transacções correntes apresenta-se constantemente deficitária. Aliás, com este nível de crescimento do PIB, o desemprego não descerá, isto se o avaliarmos com o antigo (!!!) método de cálculo do número de desempregados pelo INE…
A classe politica, na passada década, nada vez para evitar o apetite voraz e a gula do “monstro” que “abocanha” quantidades crescentes de riqueza produzida pelo sector privado, matando a iniciativa “patriótica” e meritória dos empresários que ainda resistem a uma fiscalidade paralisante e a uma justiça ineficaz, acabando por inibir o bom investimento nacional e estrangeiro, a médio e longo prazo, que motiva os cidadãos a recorrer à economia paralela para sobreviver face às dificuldades sentidas dia após dia, que “expulsa” para o estrangeiro uma geração crescente de jovens licenciados custeados na sua formação académica pelos contribuintes portugueses sem haver garantia de que esse investimento em capital humano se fixe no mercado laboral português, que reduz o Estado Social sem dar a cara por essa medida. Enfim, vivemos numa sociedade de desperdícios… e o sonho chamado “Democracia” que nos impingiram em 1974, foi mais uma atitude desprezível com que os políticos nos presenteiam todos os dias com escândalos de corrupção, de falta de transparência entre o que é público e o que é privado. Concluindo, Portugal voltou à estaca zero. Contudo, há um princípio que não admito que me roubem: Não admito que esta classe política me roube o “sonho” de pensar em viver num Portugal mais justo. Isto porque o sonho é o bem mais precioso que um cidadão digno pode ambicionar ter e por isso nunca será alienável, custe o que custar…